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Um Show de Axé com Outros Olhos

Era o oitavo dia de setembro de 2007. Estava eu em Patos de Minas, aonde morei grande parte da vida, passeando com alguns amigos à noite. A única coisa que acontecia na cidade naquele momento era o “Mix Festival”, que, nessa data, contava com a apresentação do cantor e compositor de Axé, Alexandre Peixe. Pela falta de opções, dirigimo-nos todos ao tal show.

A casa de show improvisada (o “Paiolão”, originalmente construído para exposição e leilões de gado) estava cheia. Entramos no lugar alguns momentos antes do cantor e da banda entrarem no palco. A primeira coisa com a qual tive contato, naturalmente, foram as pessoas. Estavam todas muito bem vestidas, arrumadas como se fosse o evento do ano. Porém, tendo convivido ali por muito tempo, sei que isso não é específico do show em questão. É um hábito local estar sempre o mais bem-arrumado possível. Com o recente advento de sites que registram shows e festas tirando fotos dos presentes, a importância da boa aparência ainda aumenta. Aliás, na entrada, vê-se muitos (três) fotógrafos sempre perguntando aos passantes se podem tirar uma foto. Um deles me indagou a respeito. Rejeitei polidamente, mas confesso que quis sugerir-lhe outra atividade. Estranhei o fato da música que antecedia o show não ser axé, mas funk.

Após caminhar alguns minutos em meio à multidão, notei algo que achei interessante. O grau de interação entre as pessoas varia de acordo com a distância do palco. Ou seja, longe do palco, nos fundos do lugar, as pessoas praticamente se isolam em seus grupos. Se limitam a dançar e conversar com pessoas já conhecidas de círculos de amigos pré-existentes. Perto do palco, a teia de interações entre as pessoas é muito mais densa, pois, provavelmente devido à aglomeração, torna-se mais difícil distanciar-se de quem não se conhece, acontecendo muitas vezes o movimento inverso, de aproximação entre desconhecidos. Posteriormente entrevistei uma amiga “nativa” a respeito, apenas para garantir que não se tratava de mero devaneio especulativo:

P – “É correto afirmar que as interações com desconhecidos são mais freqüentes em frente ao palco do que longe dele?”

R – “Sim, porque mais perto do palco você fica mais animado, a chance de você interagir é maior.”

P – “Posso então dizer que as pessoas que se agrupam perto do palco já o fazem visando uma maior interação entre si?”

R – “Sim, com certeza.”

Tendo observado isso, voltei minha atenção para outro elemento importante: a música em si. Cada nova música tocada era celebrada pela platéia com gritos e aplausos, como em todo show. O curioso foi notar que as canções eram infinitamente mais celebradas que o artista (por exemplo, quando o homem entrou no palco, poucos manifestaram-se). Porém, sabe-se que aquelas canções não surgiram naquele contexto geográfico (no interior de Minas Gerais), tendo sua origem no lendário carnaval baiano. Mas, nas próprias letras das músicas percebe-se uma pretensão de unificação entre Minas Gerais e a Bahia. Na canção “Axé Minas”, o compositor Manno Góes escreveu: “Veja que Belo Horizonte / Que se vê em Salvador / Veja que felicidade nos olhos da cidade / Minas hoje é / Bahia do nosso senhor”. Isso pode ser explicado como uma tentativa de identificação do Axé como um ritmo não baiano, mas brasileiro, no intuito de unificar o carnaval brasileiro sob a imagem do carnaval baiano, facilitando a “venda” do mesmo no cenário cultural globalizado. Mas trata-se apenas de especulação não comprovada empiricamente.

Contudo, as letras não tratam apenas de geografia. A principal temática, que se faz praticamente onipresente entre as músicas tocadas, é o amor. Algumas vezes, trata-se de um amor ultra-romântico, fadado ao sofrimento pela impossibilidade do encontro com o ser amado, como em: “Vou telefonar dizendo / Que eu estou quase morrendo / De saudade de você (...) / Eu não sei por quanto tempo eu / Tenho ainda que esperar / Tantas vezes eu até chorei / Mas não pude suportar”, ou da certeza de ter achado o par perfeito, a alma gêmea. Outras (aliás, a maioria), tratam de uma atração passageira, promíscua, por exemplo: “Você que ‘tá aí todo animado / Curta esta festa, não pode ficar parado. / Olha esta gata que ‘tá do seu lado / Dê um beijo nela, não fique desconfiado.”, para não citar algo mais pesado, nem as pérolas consagradas pelo grupo “É o Tchan!”.

Por falar em promiscuidade, é notável a velocidade em que casais se formavam e se desfaziam em meio à multidão. Inclusive, quando, no terceiro parágrafo, me referi a uma maior intensidade de interações na proximidade do palco, não me referia meramente à dança. Segundo amigos que se declararam assíduos freqüentadores de shows de axé, os únicos shows que os superam “em termos de promiscuidade” (segundo as palavras usadas por um deles) são os de funk. Me impressionei com a quantidade de pessoas “ficando” entre si. Me impressionei também com a pouca exigência que algumas pessoas demonstram para escolherem seus parceiros. Mas não creio que isso seja relevante.

Um fato deveras peculiar que presenciei, e creio que, pela peculiaridade, tenha que ser mencionado, foi o fato de ter avistado uma jovem moça sem calças sentada em um canto do local. Todas as pessoas que compartilharam da minha visão, e todas as com quem conversei a respeito posteriormente, me confirmaram que não é um fato corriqueiro. Intriguei-me especialmente por ela não parecer estar empolgada, eufórica, dançando de maneira despreocupada e lasciva (como eu imaginava que algo desse tipo seria, caso acontecesse – talvez resultado de um preconceito quanto à “baixaria” nos shows do gênero), o que me levou inclusive a crer que a falta de trajes dela não era proposital. Ela permanecia sentada, acanhada, tentando se cobrir com a blusa. Algumas amigas andavam em volta, mas sem nenhuma clara pretensão de barrar a visão de outrem. Pensei em perguntar a alguma delas a respeito, mas me contive com medo de ser coagido pelo rapaz que estava sentado imediatamente atrás dela, com as pernas a envolvendo.

Após três horas de show e algumas músicas repetidas, Alexandre Peixe se despede com elogios à platéia e à cidade. Retiramo-nos logo em seguida. Segundo um amigo que me acompanhava, “ele deve ter cheirado muita cocaína pra pular daquele jeito por três horas”. Realmente, o fato de todas aquelas pessoas dançarem naquele ritmo por tanto tempo é algo a ser notado.

Em suma, posso dizer que a preocupação em observar o ambiente, as pessoas e as interações a minha volta me distraiu o suficiente para que eu sequer me irritasse com o fato de ter ido a um show de axé. Retomando as horas que passei em pé observando o que eu outrora descreveria como uma “turba insana”, me impressiono ao perceber que consigo identificar ali, no que antes eu consideraria uma das formas mais caóticas de reunião de um grupo (me referindo a shows em geral), a ordem! Mas estranho essa descoberta ao perceber que tal ordem não é estabelecida ou criada, mas parece derivar de um consenso apriorístico entre as noções individuais que os sujeitos ali presentes têm de como tal ordem deve ser. Não me sinto apto a estender tal argumento muito além disso, apenas ressaltaria (aliás, arriscaria ressaltar) que esse consenso é mais um – se não for o – elemento chave do poço de determinações comportamentais a que chamamos cultura.

Trata-se de um trabalho que fiz para a disciplina "Antropologia Jurídica". Talvez alguns prefiram esperar até que minha nota seja divulgada para opinar a respeito... :D

haha.. ficou engraçado o texto..

o salgado falou como se fosse um ET no show de axé.. hahaha..

Não era?
Hahahaha...
A tentativa da imparcialidade do cientista social... eheheh...
Abraços.
Cadê os anonimos e os Jericós!?

Show de axé... ninguém merce! Fui em apenas um e fiquei assim como vc... só observando o movimento...

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